segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Mais um café gelado por favor

A noite estava fria e como sempre, eu estava só.
Na TV passava um filme antigo e mal dublado, aqueles de velho oeste.
Eram duas da madrugada e minha insônia era minha companhia, mais uma vez.
Resolvi sair.

O amor não bate em minha porta há algum tempo. Até que sinto falta daquela dorzinha no peito. Sim, porquê pra mim o amor é uma dor. Ninguém admite, mas é sim.

Da moto, avistei uma boate que me chamou atenção pelo nome "Poisoned Apple". Resolvi parar para beber algo. "Quem sabe não envenenasse meu coração?" pensei.
Entrei, e haviam muitos motoqueiros de beira de estrada, todos vestidos de preto. Acho que era alguma fraternização de moto clube, não sei. Me olharam quando abri a porta, mas logo se viraram, como se fosse uma brisa que abriu a porta e fechou, como se eu não estivesse ali.
Além da garçonete, que cheirava cigarro de palha e mascava um chiclete como se fosse um capim, eu era a unica mulher daquele lugar.
O lugar era sombrio. As luzes em tom azul royal, porém algumas estavam piscando, dando ao "Poisoned Apple" uma verdadeira aparência de morte envenenada agonizante.

Haviam caveiras por algumas partes como decoração, o chão era de madeira e o teto, com uma especie de borracha caidas para baixo.
E espelhos, uma porção deles. Quebrados. Nas paredes e no galpão.

Meu mundo é um espelho. Sou reflexo de todo mundo ao meu redor, menos de mim mesma.
É por isso que não tenho amigos, é por isso que não tenho alguém. É por isso que não tenho alma.

Em um desses espelhos quebrados, vi meu reflexo. Eu parecia um deles, os motoqueiros.
Minha unhas roidas, meus cabelos pretos amarrados, porém dentro da touca. Minha calça jeans desbotada e jacketa de couro. Meu cachecol era caqui, mas estava desbotado demais para parecer um acessório feminino.

Me sentei em uma mesa no canto, perto das janelas. Elas estavam abafadas, e isso lembra minha infância. Costumava desenhar uma casa e uma arvore com maçãs penduradas. As maçãs eram vermelhinhas e grandes.. Agora estavam envenenadas.
A garçonete com cheiro de capim se aproximou: "O que deseja rapaz?"
Eu me virei e, pelos meus olhos ela viu que eu era uma mulher, assustou e perguntou novamente sem o rapaz do final.
"Um café gelado por favor"

Gelado. Ironia era pedir algo gelado naquele tempo.
Meu coração estava gelado, e por mais que tomasse a mais quente de todas as bebidas, mais tarde ele ainda estaria frio. Não se cura dor com amor.

[...]